Dia Mundial da Ciência: como a pesquisa pública transformou a produtividade do agro
Da redação · 4 min de leitura

Meio século atrás, o Cerrado era visto como uma região de solos ácidos e pobres, pouco adequada à agricultura em larga escala, e o Brasil importava parte dos alimentos que consumia. Atualmente, o bioma concentra algumas das maiores áreas de grãos do planeta. Essa virada não aconteceu por acaso nem apenas por esforço individual de produtores: foi construída em laboratórios, campos experimentais e universidades. Às vésperas de 10 de novembro, Dia Mundial da Ciência pela Paz e pelo Desenvolvimento, proclamado pela UNESCO em 2001, vale revisitar como a pesquisa agropecuária no Brasil transformou a produtividade do campo.
Uma estrutura de pesquisa construída ao longo de décadas
A pesquisa agrícola brasileira tem raízes antigas. O Instituto Agronômico de Campinas, por exemplo, foi fundado ainda no século XIX, e escolas de agronomia e institutos estaduais formaram gerações de técnicos. O grande salto de escala veio nos anos 1970, com a criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa, instalada em 1973, que organizou uma rede nacional de centros especializados por produto, por tema e por região.
Essa estrutura, somada às universidades públicas, às organizações estaduais de pesquisa e aos serviços de extensão rural, permitiu desenvolver tecnologia adaptada às condições tropicais, em vez de simplesmente importar pacotes criados para climas temperados.
A correção dos solos do Cerrado
O principal obstáculo do Cerrado era químico. Os solos da região são, em grande parte, ácidos, com alumínio em níveis tóxicos para as plantas e baixa disponibilidade de fósforo. Pesquisas sobre calagem, adubação fosfatada e manejo da fertilidade mostraram como corrigir essas limitações de forma econômica.
Com a aplicação de calcário para neutralizar a acidez e de fósforo para construir a fertilidade, áreas antes consideradas marginais passaram a produzir com regularidade. O trabalho de pesquisadores e gestores públicos nessa frente foi reconhecido internacionalmente: em 2006, o World Food Prize foi concedido a Alysson Paolinelli, Edson Lobato e Colin McClung pela contribuição à transformação do Cerrado em região produtiva.
Cultivares adaptadas aos trópicos
A soja chegou ao Brasil como cultura do Sul, adaptada a latitudes mais altas. Nas regiões próximas ao Equador, as variedades tradicionais floresciam cedo demais, porque a planta responde ao comprimento do dia, e produziam pouco. Programas de melhoramento genético desenvolveram cultivares com período juvenil longo, capazes de crescer e produzir bem em latitudes baixas. Foi isso que permitiu à soja avançar pelo Centro-Oeste e, depois, pelo Norte e Nordeste.
O mesmo esforço se repetiu em outras culturas: variedades de trigo tolerantes ao calor, forrageiras adaptadas aos solos tropicais, cultivares de feijão, arroz e milho resistentes a doenças e mais produtivas. Cada nova cultivar resulta de anos de cruzamentos, testes de campo e seleção.
Fixação biológica de nitrogênio
Um dos resultados de maior impacto econômico da pesquisa brasileira é pouco visível para quem olha a lavoura. A soja, como outras leguminosas, pode obter nitrogênio do ar por meio de bactérias que vivem em nódulos nas raízes. A pesquisadora Johanna Döbereiner liderou estudos pioneiros sobre a fixação biológica de nitrogênio no país, e o trabalho de seleção de estirpes eficientes permitiu que a soja brasileira fosse cultivada com inoculantes, praticamente sem adubação nitrogenada.
O resultado é uma economia expressiva em fertilizantes, que o país importa em grande parte, e uma redução do impacto ambiental associado à produção e ao uso do nitrogênio químico. A linha de pesquisa segue ativa, com estudos sobre coinoculação e bactérias promotoras de crescimento em outras culturas.
Outros avanços que mudaram o manejo
A lista de contribuições é longa. Entre elas:
- Plantio direto adaptado ao clima tropical, que protege o solo, conserva água e reduz a erosão.
- Segunda safra de milho, viabilizada por cultivares precoces e zoneamento de risco climático.
- Integração lavoura-pecuária-floresta, desenvolvida e difundida como alternativa para recuperar pastagens.
- Controle biológico de pragas, com agentes que reduzem a dependência de produtos químicos.
- Zoneamento agrícola de risco climático, que orienta as épocas de plantio e serve de base para o seguro e o crédito.
Ciência como política de longo prazo
O caso brasileiro mostra que ganhos de produtividade no campo dependem de investimento contínuo em pesquisa, formação de pessoas e transferência de tecnologia. Resultados como os do Cerrado levaram décadas para amadurecer. Manter essa capacidade diante de novos desafios, como mudanças climáticas, resistência de pragas e exigências ambientais dos mercados, é a pergunta que a data de 10 de novembro ajuda a recolocar.
O que mais perguntam
Quando é o Dia Mundial da Ciência pela Paz e pelo Desenvolvimento? Em 10 de novembro. A data foi proclamada pela UNESCO em 2001 para destacar o papel da ciência na sociedade e no desenvolvimento sustentável.
Como a pesquisa tornou o Cerrado produtivo? Principalmente com técnicas de correção da acidez e da fertilidade do solo, como calagem e adubação fosfatada, e com cultivares adaptadas às latitudes tropicais.
O que é fixação biológica de nitrogênio? É o processo pelo qual bactérias associadas às raízes de leguminosas, como a soja, captam nitrogênio do ar e o fornecem à planta. Com inoculantes, a soja dispensa praticamente o adubo nitrogenado.
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