M2 Agro
Edição 2026

Cinturão verde do Alto Tietê: como novos acessos ao Rodoanel afetam o escoamento de hortaliças

Da redação · 5 min de leitura

Lavoura de soja em linhas sob céu com nuvens

Uma alface colhida de madrugada em Biritiba Mirim precisa chegar ao entreposto, à doca do supermercado ou à banca da feira poucas horas depois, ainda firme e sem folha murcha. No cinturão verde do Alto Tietê, onde a produção de folhosas, temperos e legumes convive com o trânsito da maior metrópole do país, o tempo de estrada faz parte do custo de produção. Por isso, obras de acesso rodoviário interessam ao produtor quase tanto quanto a previsão do tempo.

Um cinturão que abastece a metrópole

A faixa agrícola que vai de Mogi das Cruzes a Biritiba Mirim e Salesópolis, passando pela zona rural de Suzano, por Guararema e por cidades vizinhas, é um dos pilares do cinturão verde paulista. Segundo a Ceagesp, mais de 80% das hortaliças que abastecem o entreposto vêm desse cinturão, e a porção leste dele reúne milhares de pequenos produtores. A regional da CATI sediada em Mogi das Cruzes, que atende 12 municípios, informou em fevereiro de 2026 que a olericultura concentrou cerca de 80% dos atendimentos técnicos do ano anterior e que a região responde por aproximadamente 90% do volume de temperos e ervas comercializado na Ceagesp.

Alface, repolho, brócolis, couve e cebolinha lideram a lista. São produtos de vida curta: folhosas perdem água e aparência rapidamente, e cada hora a mais em caminhão sem refrigeração vira descarte na ponta ou desconto na hora da venda.

O caminho até o entreposto e os centros de distribuição

O destino da colheita varia. Parte segue para a Ceagesp, na zona oeste da capital, o que exige atravessar a cidade pelas marginais. Outra parte vai para centros de distribuição de redes varejistas, muitos instalados ao longo das rodovias e do Rodoanel, e para atacadistas regionais. Há ainda quem entregue diretamente em feiras, sacolões e restaurantes da Grande São Paulo.

Em quase todos os casos, o gargalo está no primeiro trecho: sair das estradas vicinais e das vias urbanas do Alto Tietê e alcançar uma rodovia de fluxo contínuo. O Trecho Leste do Rodoanel, inaugurado em 2014, passa por Poá e Suzano, mas chegar até ele a partir dessas cidades sempre foi difícil. Nos primeiros meses de operação, o fluxo ficou bem abaixo do previsto, e a falta de acessos era apontada como uma das causas. Na prática, caminhões carregados seguiam por ruas estreitas e rotatórias congestionadas antes de ganhar a pista.

O que muda com os novos acessos ao Rodoanel

É nesse ponto que entra o Complexo Viário do Alto Tietê, conjunto de viadutos, alças e vias marginais que a concessionária dos trechos Sul e Leste do Rodoanel constrói em Poá e Suzano com o governo estadual, com investimento anunciado de R$ 1,2 bilhão. Em Suzano, o projeto prevê duas novas alças da Rodovia Henrique Eroles (SP-066) ao Rodoanel, um acesso pela Avenida Brasil e uma ligação direta no sentido da Rodovia Presidente Dutra. A estimativa oficial é de redução de até 30 minutos no tempo de acesso às cidades da região.

Para quem produz hortaliças, os efeitos possíveis são:

Ressalvas antes de refazer a logística

A obra está em andamento. Passou de 30% de execução em agosto de 2026, e a conclusão está prevista para o fim de 2027. Até lá, desvios provisórios, como o que alterou a rotatória da SP-066 em Poá a partir de 26 de agosto, podem alongar alguns trajetos.

Também convém não superestimar o ganho. Minutos economizados no acesso ao Rodoanel não resolvem o trânsito da capital nem a travessia até a zona oeste. Pedágio, combustível e custo do caminhão continuam pesando, e uma rota mais rápida por via pedagiada pode não compensar para cargas pequenas. Outro ponto a acompanhar é o uso do solo: acessos rodoviários costumam atrair galpões e loteamentos, que podem disputar espaço com áreas agrícolas próximas, algo que depende do planejamento de cada município.

Como se preparar desde já

O que mais perguntam

Quando o Complexo Viário do Alto Tietê deve ficar pronto? A previsão divulgada é de conclusão até o fim de 2027, com prazo de obra de 24 meses contados a partir de novembro de 2025. Algumas entregas podem ser antecipadas conforme o andamento.

Os novos acessos vão baratear o frete das hortaliças? Não necessariamente. O ganho esperado é de tempo e previsibilidade no acesso ao Rodoanel; o valor do frete depende de combustível, pedágio, volume transportado e negociação com o transportador.

Produtores de Mogi das Cruzes e Biritiba Mirim também são afetados? Indiretamente. As obras ficam em Poá e Suzano, mas quem usa a SP-066 para chegar ao Rodoanel poderá aproveitar as novas alças em Suzano. Em trajetos pela Mogi-Dutra ou pela Ayrton Senna, o efeito tende a ser menor.

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